Os frutos anunciam o continuar da vida A tempestade, a limpeza As flores materializam a presença de Deus A família Cavalcanti recebe o novo ano com calor, chuva, trovões, cachoeira, sapos, sol e alegria na Fazenda do Tao! Viva! Natal dos Cavalcanti em Olinda
Não se podia esperar muita coisa da conferência do clima de Copenhague (a COP-15 da ONU), encerrada dia 18 deste mês. Um encontro de tal magnitude não permite desfechos milagrosos. Discutir questões técnicas e suas implicações políticas envolve toda uma diplomacia. Chegar a acordos depois disso é trabalho árduo, ainda mais quando se tem que exprimir cada item numa multidão de idiomas. Uma palavra mal interpretada exige tempo enorme de negociações e explicações. Já participei de eventos da ONU, inclusive da parte científica da Rio-92 (a convite do CNPq). Não é fácil dialogar em ocasiões assim, apesar do interesse das pessoas e da importância dos assuntos em debate. No caso das grandes conferências internacionais, há participação significativa de burocratas e pessoas que vão ali apenas passear. Como, de fato, explicar que o Brasil tenha tido em Copenhague uma delegação de 700 membros? Não é sem razão que se passou a denominar a capital dinamarquesa de Shoppenhague. Por outro lado, quem pagou a despesa de tanta gente inútil para as discussões sobre o que interessava no caso, um acordo para conter a ameaçadora progressão da mudança climática do planeta? Admitindo a modesta quantia de 15 mil reais para a viagem de cada um desses nossos “representantes”, chega-se ao total de 10,5 milhões de reais de custo para a revoada (o dinheiro foi público). Sobre isso, deve-se adicionar a chamada pegada ecológica (custo ambiental) correspondente, esta última uma das causadoras do efeito estufa que a COP-15 visava conter.
Deve-se registrar que o Brasil foi um protagonista destacado no evento. O presidente Lula da Silva resolveu arregaçar as mangas e mostrar que o país estava disposto a enfrentar a questão do temível aquecimento global. Demorou, porém, a perceber isso. E colocou à frente da delegação brasileira uma inimiga nada sutil do meio ambiente, a ministra Dilma Rousseff, “recém-chegada à questão climática”, com o disse Miriam Leitão aqui no Diario. Segundo Miriam, que assistiu à COP-15, a ministra Dilma “imprimiu à atuação brasileira umamadorismo insensato. Além disso, neutralizou alguns dos nossos mais bem treinados negociadores”. E ainda cometeu ato falho, registrado no noticiário da Rede Globo, afirmando: “O meio ambiente é, sem dúvida nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável”. Inacreditável? Não. Essa foi sempre sua postura – inclusive tendo levado adiante iniciativas que a então ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, não aprovava. O presidente Lula sempre comungou da mesma perspectiva, haja vista sua declaração em Mato Grosso, dia 21.11.07, na inauguração de uma usina de biodiesel, quando afirmou de cátedra que o meio ambiente é um “entrave” ao desenvolvimento. Será que ele adota agora uma visão radicalmente distinta, como a do sócio-ambientalismo?
A ida de uma multidão de gente absolutamente supérflua na comitiva brasileira para a COP-15 mostra como estamos distantes de um compromisso sério com o uso prudente, moderado, parcimonioso dos recursos da natureza (e das verbas do Tesouro). Se, pelo menos, esses contemplados com o passeio à Dinamarca se inspirassem nas soluções inteligentes e sustentáveis do modelo dinamarquês de vida, seria pelo menos alguma coisa. Mas não ouvi de ninguém que esteve lá sob as bênçãos do Erário comentários sobre a vida frugal, o transporte público de qualidade, as ciclovias de Copenhague. Ouvi, sim, do presidente do Partido Verde em Pernambuco, Sérgio Xavier (que foi à COP-15). Ele, no Blog de Jamildo de19 do corrente tratou exatamente disso, sugerindo a implantação de uma grande malha de ciclovias no Recife (integrada com o transporte público). “Copenhague é do tamanho do Recife e é exemplar nisso”. Afinal, palavras sensatas de alguém que tem compromissos ecológicos genuínos.
A idéia era essa, viver a vida. Compartilhar, desfrutar do nosso paraíso da Fazenda do Tao. ... foi um dia encantador... ... boa conversa, sonhos, bate-papo descontraído, risos, reciprocidade fundada em laços fraternos, simples e significativa comunhão... ... comidas... quitudes... bebidas... celebração... encontros... ... mata... chuva (que forte e bela chuva a de ontem!)... belo sítio... inestimável acolhida... bela casa... ambiente de grande luz!!! Obrigado, amigos e amigas da CGEA, pelo dia de ontem. Eu o guardarei para sempre em meu coração. Muito fraternalmente, Cristiano Ramalho Confraternização natalina do CGEA (Coordenadoria Geral de Estudos Ambientais) dos pesquisadores da Fundação Joaquim Nabuco na Fazenda do Tao Saúde Bom Apetite! Viva! Meditação e reunião na mata Olha a chuva! Clara e Vera desenhando na mensagem de Natal de Clóvis Abraço de irmãos
Programa de ótimo nível que torna Olinda mais civilizada – como diz minha amiga Vera Milet, moradora do Alto da Sé – é o “Olinda, Arte em Toda Parte”. Ele acontece nesta época do ano, mostrando o que a cidade tem de atraente (muita coisa) no campo artístico. Andar pelas ruas do sítio histórico torna-se então um prazer renovado. Não neste ano. O programa de 2009 se encerra hoje e, pode-se dizer, foi um fracasso rotundo. Começou com uma cerimônia de abertura sem graça, na qual o prefeito (Renildo Calheiros, que não incorpora a cultura olindense a seu estilo de vida) chegou, fez um discurso burocrático e foi embora – nada parecido com a tradição dos anos de Luciana Santos e animadas festas. A cidade, que está cheia de obras intermináveis, ficou um tumulto de carros ainda maior, impedindo, por exemplo, que a tradicional serenata pelas ruas nas sextas-feiras seguisse sua rotina de praxe. Para tentar organizar o espaço, houve mudanças no trânsito que complicaram a vida de todos. A rua de São Francisco, onde moro e que tem fluxo mínimo de carros, foi convertida em mão única, atrapalhando a vida de inúmeras pessoas. Para eu chegar agora a minha casa é preciso fazer 3km desde a praça do Carmo; antes eram 300 metros! No dia 8 de dezembro, uma pessoa levou 30 minutos procurando percorrer o novo caminho; outra, 15 minutos. Na verdade, é incrível a falta de bom senso com que a mudança foi adotada. Os moradores da são Francisco só têm que subir 400 metros de rua, no máximo, mas isso não lhes é permitido – apesar de a rua estar quase sempre vazia.
Falta de bom senso é hoje um predicado da gestão pública de Olinda. Vejam o que se fez no Memorial Arcoverde, porta de entrada da cidade. Para permitir o espetáculo do Cirque du Soleil, que durou 25 dias, destruíram toda uma área de parque, que foi pavimentada sobre pesados paralelepípedos colados com cimento. O circo foi embora, dizem que pagou uma indenização de 1,4 milhão de reais pela destruição que provocou e o espaço por ele ocupado é hoje, sem nenhum exagero, um deserto. Ultimamente, tem sido usado para estacionamento de ônibus que vão para o Centro de Convenções. Existe prova mais eloqüente de falta de qualquer senso na promoção do bem-estar humano na cidade de Olinda? O prefeito, seus secretários, assessores, etc – tal como o governador do Estado, seus secretários, sua corte de ajudantes –, ninguém, até hoje demonstrou qualquer incômodo com o absurdo do Cirque du Soleil. Pior: várias dessas eminências e boa parte das elites locais ali desfrutaram de um par de horas de animado divertimento. Divertimento cujos benefícios foram todos privados e cujos custos recaem sobre toda a sociedade.
Em plena hora do Arte em Toda Parte, Olinda é presenteada com um presépio descomunal na colina do Carmo no qual se juntam figuras grotescas e fantasmagóricas incompatíveis com o nível da arte que renomados artistas olindenses praticam. Trata-se de um projeto que não passou por discussão pública entre aqueles que estão ligados às tradições da cidade. Simplesmente, montaram um cenário que agride a quinhentista igreja do primeiro convento carmelita das Américas. Presépio é sempre uma coisa delicada. Mesmo nas cidadezinhas e lugarejos do interior, com recursos limitados, as pessoas os fazem com sabor e graça. Olinda realmente não merece o monstrengo que se instalou na entrada do sítio histórico. Para agravar o quadro, uma árvore de natal de plástico “reciclado” de garrafas pet verdes foi armada na praça do Carmo. Outra clara demonstração de falta de senso (talvez justificada apenas pela suposição de que aquilo é ecologicamente correto). Sem dúvida: Olinda malas-artes em toda parte.
Também fazemos parte da história de Clóvis. Compartilhar as aventuras, as trajetórias e rompantes deste homem não é para qualquer um... Um pouco da sua história fotográfica revela o amor pela família. Parabéns a todos nós. Feliz aniversário Clóvis com toda a sua prole. Salve, dia 8 de dezembro de 2009 Dia de Nossa Senhora da Conceição Dia do nascimento de Clóvis
livro em homenagem aos 80 anos de Clóvis Cavalcanti
CLÓVIS CAVALCANTI: ECONOMISTA ECOLÓGICO DO NORDESTE DO BRASIL PARA A SUSTENTABILIDADE DO PLANETA
Clóvis Cavalcanti em Audiência com o Papa Francisco
Clóvis Cavalcanti e sua conversa com o Papa Francisco sobre a Carta Encíclica do Sumo Pontífice - "Laudato Si´" (Louvado Sejas) e a Economia Ecológica. E sobre a ISEE - Sociedade Internacional de Economia Ecológica. Vaticano, 23.11.2016
Clóvis Cavalcanti é economista ecológico, escritor, professor da Universidade Federal de Pernambuco, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, presidente de honra da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (EcoEco), presidente eleito da ISEE (Sociedade Internacional de Economia Ecológica)
Clóvis Cavalcanti eleito presidente da ISEE - jan 2016
Professor Clóvis Cavalcanti, sócio do Centro Celso Furtado, foi eleito presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE - www.isecoeco.org ). Concorreu com David Barkin, México, Que em 2012 Participou de mesa em Congresso Internacional do Centro Celso Furtado.
15th congress ISEE
15º Congresso Internacional da Sociedade de Econômica Ecológica. Puebla, 10, 11 e 12 de set 2018 - México
Clóvis Cavalcanti
Born in 1940, Clóvis Cavalcanti is a Brazilian ecological economist living in Olinda and working in the Recife area, Brazil. He is also an organic farmer since 1976, and an environmentalist. He taught ecological economics at the Federal University of Pernambuco and retired as an Emeritus Researcher from the Institute for Social Research, the Joaquim Nabuco Foundation. He was visiting professor at various universities including Vanderbilt (USA), La Trobe (Australia), Cuenca (Ecuador), Oxford (Britain), and the University of Illinois at Urbana-Champaign (USA). He has been a member of the scientific council of the Institute of Integral Medicine of Pernambuco (Recife) and of the Consultative Council of the Celso Furtado International Center for Development Policies in Rio. He is a founding member of the International Society for Ecological Economics (ISEE) and its present President for 2018-2019. He is also a founder and honorary president of ECOECO (the Brazilian Society for Ecological Economics). He has had assignments in the board of directors of ANPPAS, the Brazilian Association of Research and Graduate Studies on the Environment and Society, and in the board of CLACSO, the Latin American Social Sciences Council (Buenos Aires). He has pioneered work on patterns of sustainability in the Americas, comparing the US and Amerindian lifestyles. He has written and published regularly since the late 1960s in peer-reviewed journals. He is the author, co-author or editor of 12 books, including The Environment, Sustainable Development and Public Policies: Building Sustainability in Brazil (2000). He introduced the concept of ethnoeconomics during his visiting professorship at Oxford in 2000, publishing a paper on the subject in Current Sociology, Jan. 2002. He has done work on the role of traditional ecological knowledge in development, and on environmental governance. He collaborated in the preparation of Angola’s 2005-2025 development strategy, introducing a proposal (adopted) for a wealth fund based on oil royalties for use in perpetuity. He has written on alternative development paths and their policy requirements since the mid-1980s. In 2012-2013, he did work in Bhutan’s International Expert Working Group which contributed to a report submitted by the Bhutanese government to the UN. In December 1968 he gave a speech in Recife at a graduation ceremony under the title “Economics and human happiness: a quasi-philosophical essay”.
Foto em Thimphu (Butão) com o Rei, a Rainha e o Primeiro-Ministro do país. No grupo, de experts convocados para tentar propagar o paradigma butanês de desenvolvimento, baseado na felicidade, na simplicidade e no equilíbrio de todos os seres, há pessoas de 16 países. Suas Majestades estão na fileira de cima. Dia 1º.2.13.
Palestra blá blá blá
Meu tempo...
Homenagem dos amigos da Fundaçao Joaquim Nabuco
Meu Tempo
por Clóvis Cavalcanti
Meu tempo é feito de flamboyants floridos com suas cores vitais e seus múltiplos chamamentos. Meu tempo é feito do aroma doce que sai do amarelo cantante das acácias. Meu tempo é feito das mangueiras tropicais com seus frutos pingentes, de árvores de Natal, que não permitem que se desista da vida e da beleza completa do mundo natural. Meu tempo é feito dos sorrisos precoces, dos cumprimentos vespertinos, da brisa que sopra carinhosamente nas tardes rosadas de dezembro. Meu tempo é feito de amizades que não têm fronteiras e se expandem infinitamente em todas as direções e por todas as eras. Meu tempo é feito de expectativas reais com suas formas antevistas e suas concretizações imprevisíveis. Meu tempo é feito de uma louca busca, de uma brincadeira imensa, sem espaço para as reflexões racionalistas. Meu tempo é feito de desejo de doação sem visar lucro ou retorno – vontade visceral de ofertar um amor gratuito. Recife, dez. 1982
Poesia infantil
Renata de 9 anos é filha da aluna de Clóvis, Cibelle, que em plena aula sobre Sociedade e Meio Ambiente fez esse poema. Ufpe jul 2010
Semana Meio Ambiente e Clóvis
Homenagem a Clóvis Cavalcanti, na Semana do Meio Ambiente, em seminário promovido nos dias 4 e 5 de junho de 2009 pela Diretoria de Pesquisas Sociais da Fundaj.
Livro: Manuel Correia de Andrade - um homem chamado Nordeste
Clóvis Cavalcanti, Lêda Rivas e Jacques Ribemboim - organizadores do Livro
Lançamento do livro na Academia Pernambucana de Letras - 19 de junho de 2008
Este livro reúne textos de amigos, ex-alunos, colaboradores, admiradores de Manuel Correia, cada um oferecendo a sua visão do mestre.
CORRER, CORRER, CORRER Clóvis Cavalcanti
Correr, correr, correr, / agarrado ao vento do verão, / sob o sol claro de dezembro, / sem medo de arrastar todas as multidões. / Correr, correr, correr / e, enquanto correr, / abrir os braços e cantar
para a platéia aturdida / dos que são apenas assistentes. / Tirar o sapato, o calção; / tirar a roupa; / tirar o pensamento pesado; / tirar o juízo, a falta de imaginação. / E espantar os astrais sombrios, / as desesperanças, / as destemperanças, / as decepções, / os dias de agosto, / os dias de desgosto. / Correr, correr, correr, / no meio das estradas sem começo e sem fim; / sem parar em porteiras / e sem dar a vez a carros e a motoristas / embrutecidos pelos motores a explosão. / Correr, correr, correr / e, enquanto correr, / olhar para as moças de todas as manhãs, para os homens das madrugadas boêmias, para os meninos do amanhecer lúdico. / Correr, correr, correr, / resistindo à fumaça venenosa / das incompreensões adultas. / Correr nos bosques de cajueiros, / de flores e borboletas / das florestas essenciais. / Correr à beira-mar. / Mas correr sobretudo à beira-amar. / Amar, amar, amar. / Correr, correr.
1956 - Colégio Nova Friburgo
Conclusão do ginasial
Antiga usina Frei Caneca
Local da infância de Clóvis - jan 2008
POEMA AUTOBIOGRÁFICO - Clóvis Cavalcanti
Sou um produto inacabado de mim mesmo, nascido no verão às 8 horas, em um dia 8 do mês 12 do ano 40 – tantos oitos e múltiplos de oito!
Nasci e cresci no mato, rodeado de canaviais – herdeiro de uma história de engenhos, de açúcar, cachaça e rapadura; herdeiro de Cavalcantis, Bandeiras de Melo, Carvalhos, Aguiares e Vasconcelos.
Nasci e cresci ouvindo histórias de família mestiça, produzida por índios, italianos e portugueses (africanos deve ter havido, menos), de avô plantador de cana arruinado pela Grande Depressão.
Sou menino de usina, da bagaceira onde brincava, embolando nos montes de cana moída fermentando, açucarada e negra, para virar adubo.
Menino do mato, vivi uma vida de brincar com barro, subir em árvores e observar os peixes do rio Fervedouro, que corria junto de minha casa (enquanto espiava meninas nuas se [banhando).
Algumas vezes, o rio enchia e eu admirava aquela água barrenta descendo, impetuosa. Na Quinta-feira Santa, secavam a Tomada e o rio Fervedouro era um formigueiro de gente com balaios, redes e manzuás pescando piaba, traíra e aruás.
Depois seguia o inverno, eram meses silenciosos, a chuva caindo em lindas poças – poças largas, que pareciam grandes demais para o menino que espiava pingos caindo, formando ondas múltiplas. Depois vinham as libélulas para mergulhar na água empoçada.
Ah! O inverno em Frei Caneca, friozinho, úmido, lamacento. Só havia luz para a vila até 22 horas, mas na nossa casa nunca apagava. Casa grande, com muitos quartos, amplos alpendres, quintal, jardim, tantas mangueiras e o rio Fervedouro, proibido de tomar banho devido ao [schistosoma.
Esses foram anos de encanto, de brincadeiras infantis, de descobertas e uma vida mansa. Meu pai, austero, sempre de gravata, trabalhava, trabalhava, trabalhava. Tinha histórias freqüentes para contar – de fornecedores, de usineiros, de operários, de camponeses, de coisas e impostos a pagar.
Ah! Meu pai, homem sério, duro e honesto. Honestíssimo. Deu a vida à usina, que tirou das dívidas, incertezas e medos pós-Grande Depressão.
Minha mãe ficava em casa e era também Agente do Correio. Fazia sempre doces, muitos – de leite, de batata-doce, goiaba, banana –, fazia bolo-de-rolo, souza-leão e pão-de-ló de que meu pai gostava. Não faltava bom licor de jenipapo e outros mais, conseguidos nessa faina doméstica com a ajuda de tantas Marias (a de Seu Zé Estribeiro era uma), Zé Bodinhos, Helenas, Leopoldinas, também por Geraldo, que trazia a água, e um homem que mexia os tachos de doce.
Infância luminosa, calma, devagar, na companhia de irmãos sempre a nascer (foram dez), na companhia da avó Iaiá, que vinha de vez em quando, e da longeva bisavó Madrinha. Só conheci um avô querido, morto cedo, aos 56 anos (o outro foi-se antes que eu nascesse).
Queria ter tido avôs, pais mais macios como são os avôs, com quem fosse passear e andar a cavalo, como fazia comigo Vovô Arquimedes no seu belo corcel negro. Mas não tive avôs.
Meu pai nos levava a passear nos dias de domingo. Andávamos na usina, subíamos nas moendas e caldeiras, íamos à Tomada, caminhávamos pela estrada de Maraial, onde colhíamos mal-me-queres e tabicas que nunca dispensávamos (o centenário velho Ricardo sempre nos trazia algumas de ótima confecção).
As lembranças são doces, Claras, cintilantes – de meu tempo de [menino. Nada se compara a uma infância que valha a pena recordar. A minha na Usina Frei Caneca!
Serra do Espelho, da Usina Frei Caneca
Clóvis na Serra do Espelho, em jan. 2008
Clóvis Cavalcanti
Nascido na Usina Frei Caneca, município de Maraial, Pernambuco, em 8.12.1940. Criou-se entre canaviais. O pai era contador da usina e a mãe, agente do Correio. Não teve curso primário regular. Aprendeu a ler em casa. Freqüentou escolas públicas e fez o último ano com padres salesianos de um internato em Frei Caneca, onde foi aluno externo. Fez o curso secundário (1952-1959) no Colégio Nova Friburgo (uma escola leiga da Fundação Getúlio Vargas, em Nova Friburgo, Estado do Rio), como interno. Estudou ciências econômicas na Universidade do Recife (1960-1963). Teve como paraninfo Manoel Correia de Andrade e como patrono da turma Caio Prado Júnior. Estagiou na Sudene convivendo com Celso Furtado, Chico de Oliveira, Luís de Vasconcelos e outros. Pós-graduação no Centro de Aperfeiçoamento de Economistas da Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, janeiro-agosto de 1964. Aí estudou com Mário Simonsen e assistiu a palestras de Nicholas Georgescu-Roegen, pai da economia ecológica. Mestrado de economia na Universidade de Yale, Estados Unidos (de setembro de 1964 a junho de 1965). Conviveu aí com James Tobin, Prêmio Nobel de Economia de 1988, e Celso Furtado, que estava exilado como professor visitante em Yale. Foi levado para Yale pelo prof. Werner Baer. Contra a vontade deste, decidiu não fazer doutorado em Yale por considerar que o melhor doutorado seria o da vivência com a realidade do Brasil e por discordar do conteúdo da teoria econômica ensinada nos Estados Unidos. Trabalhou em seguida no Comitê dos Nove, na União Panamericana (Organização dos Estados Americanos – OEA), entre junho e setembro de 1965, levado pelo prof. Carlos Díaz-Alejandro. Conviveu aí com Hollis Chenery e Rômulo de Almeida.Entrou na Sudene em setembro de 1965, convidado pelo superintendente-adjunto, seu ex-professor, Fernando Mota, para integrar a equipe do Grupo do Vale do Jaguaribe, trabalhando com franceses (de set. 1965 a abril de 1967). Ingressou também na Universidade do Recife, depois Federal de Pernambuco (UFPE), e na Universidade Católica de Pernambuco em setembro de 1965. Em outubro de 1967, entrou no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (IJNPS) e na Faculdade de Ciências de Administração da Fesp (Fundação do Ensino Superior de Pernambuco, depois Universidade de Pernambuco – UPE). Em outubro de 1970, renunciou a todos os empregos para ficar em dedicação exclusiva na UFPE, onde havia participado da fundação do Pimes (mestrado de economia). Em janeiro de 1973, passou a trabalhar apenas no IJNPS, como pesquisador e diretor do Departamento de Economia, voltando a conviver com Gilberto Freyre. Deu aulas na UFPE em 1974-1975, havendo organizado na graduação de economia, no segundo semestre de 1975, o primeiro curso regular de economia do meio ambiente do Brasil. Depois disso, dedicou-se somente à pesquisa no IJNPS, que virou Fundação Joaquim Nabuco em junho de 1980. Passou a dirigir o Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação, cargo em que ficou até fevereiro de 2003 (com breve interregno entre março e julho de 1986). Aposentou-se em dezembro de 2010, às vésperas de completar 70 anos. Mas foi eleito pelos colegas para diretor da área de estudos do meio ambiente no Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco, daí saindo em dezembro de 2013 e recebendo o título de Pesquisador Emérito. Eleito Presidente de Honra da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (EcoEco), da qual foi fundador, em 2011, tornou-se Presidente-Eleito da International Society for Ecological Economics (ISEE), de que é fundador, em 2016, assumindo a presidência efetiva da entidade para o período 2018-2019. Nessa condição, presidiu o XV Congresso da ISEE em 2018 em Puebla (México). Trabalhou na elaboração da estratégia de desenvolvimento de Angola para 2003-2025 e no estudo do governo do Reino do Butão para a ONU sobre a filosofia da Felicidade Nacional Bruta (GNH, em inglês) desse país do Himalaia, em 2012-2013. Sua participação nesses trabalhos foi sempre na ótica da Economia Ecológica, visando a promoção de um desenvolvimento que significa, na essência, prosperidade sem crescimento.
Formatura em Economia
Ufpe, 1963
Avô Arquimedes
1938, Arquimedes Vasconcelos, com os filhos Lauro e Glauro, Gisonita Nilza (Nitinha), Mirtes Dalva e Candida