segunda-feira, 3 de maio de 2010

Artigo publicado no DP, dom. 2.5.2010

ATAQUE INSANO AOS PATRIMÔNIOS HISTÓRICO E NATURAL

Clóvis Cavalcanti

Economista e pesquisador social


Foi um choque para mim a notícia do Diário, no dia 11 de abril último, dando conta da insensata derrubada da bela casa-grande do engenho São Bartolomeu, no município de Jaboatão dos Guararapes. No dia 7.4.10, o jornal havia trazido reportagem sobre esse monumento arquitetônico, com sugestiva foto que revelava sua marcante beleza. Doeu verificar o descaso com que se tratou um bem valioso de nosso patrimônio histórico e cultural. Infelizmente, no Brasil, tem sido assim sempre. Cada dia que passa, perdemos algo que fará falta, um dia, em nossa memória coletiva (na verdade, já faz). Quem não se lembra do crime que o prefeito Augusto Lucena (1916-1995) cometeu na calada da noite, mandando derrubar a preciosa igreja dos Martírios, no bairro de São José (Recife), em janeiro de 1973, para dar lugar à horrorosa av. Dantas Barreto que ele nos legou? Houve protestos. O Conselho Estadual de Cultura, e vários intelectuais pernambucanos deram sua opinião contra a demolição do templo. Mas não se impediu a concretização da medida lamentável, bruta, insana do alcaide recifense. Essa conduta verifica-se com mais sanha violenta no caso de nosso patrimônio natural.

Aqueles que acompanham os problemas do meio ambiente em Pernambuco, por exemplo, sofreram duro golpe na última terça-feira. Nesse dia foi aprovado pela Assembléia Legislativa o projeto de lei do governador Eduardo Campos mandando destruir 1.046 ha (10,5 km2) de áreas preservadas nas proximidades do porto de Suape para a expansão de atividades industriais. Faz-se isso, desculpem o trocadilho, com a maior naturalidade. Ninguém pensa em biodiversidade, na riqueza inigualável da Mata Atlântica e dos mangues atingidos pela decisão dos deputados, nos serviços ecológicos que a natureza nos presta. Ninguém pensa nas centenas de pessoas cuja vida se tornou um inferno com a invasão do território em que antes viviam sem sobressaltos. Pior é que esse afã depredador tem cinco séculos de prática ininterrupta. Trata-se, com certeza, de um sinal insuperável do atraso secular de nosso perfil como sociedade. A história do processo violento é bem contada no magistral livro Nordeste, de Gilberto Freyre (sempre ele), de 1937. Chamando o monocultor de “ladrão de terras” – expressão cunhada pelo agrônomo americano H.H. Bennett –, ele conclui que os espaços devastados das florestas da Zona da Mata eram “perturbados pelo homem da maneira mais terrível”. O modelo continua em plena voga, sob a batuta de um capitalismo cuja selvageria se oculta no timbre do “socialismo” do governo pernambucano.

Se estarrece a constatação da forma com que se derruba uma admirável casa-grande de engenho – como acentuou o Diario, em seu editorial de 27.4.10 –, com muito mais horror deve-se olhar para o tratamento que se dá aqui aos bens insubstituíveis da natureza. Uma casa se reconstrói. Já uma espécie extinta não se repõe. Nem se consegue refazer uma paisagem singular. Imagine-se o que restaria da terraplanagem do Alto da Sé, em Olinda; ou da explosão com dinamite dos recifes de Porto de Galinhas e, no Rio de Janeiro, do morro do Pão de Açúcar. Disse o Diario no editorial de 27 de abril: “nenhuma cultura se sustenta sem a seiva do fundamento histórico, sem o testemunho desse fundamento, que faz os povos andarem com segurança”. Afirmação correta, que precisa penetrar no juízo dos gestores do patrimônio cultural e histórico. Mas o que dizer dos serviços e bens do meio ambiente? Quem pode viver sem eles? Alfred North Whitedead (1861-1947), grande filósofo britânico, enfatiza que viver representa um “ataque” inevitável ao meio ambiente. Faz-se isso ao respirar, comer, beber, construir abrigo. A questão, segundo Whitedead, é que o ataque deve ser dirigido pela razão, pela inteligência. Não insanamente, como em Pernambuco (e no Brasil).

Um comentário:

Comitê da Reserva da Biosfera da Caatinga PE disse...

Professor Clóvis,
Parabéns pelo Blog. Agora temos uma oportunidade de leitura de seus artigos, sempre inteligentes. Um grande alerta sobre a degradação que causamos ao nosso planeta. Quando puder visite o nosso Blog da Caatinga: http://www.comitecaatingape.blogspot.com
Abraço.