domingo, 27 de setembro de 2009
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Clóvis em aula prática com alunos de Ciências Ambientais UFPE set. 2009
Artigo publicado - DP, 20 set. 2009
NOVIDADE ALVISSAREIRA NA POLÍTICA NACIONAL
Clóvis Cavalcanti
Economista e pesquisador social
Quem assistiu à entrevista da senadora Marina Silva no programa de Jô Soares, da Rede Globo, há três semanas, pôde ter uma idéia da personalidade e experiência dessa notável mulher. Falando com naturalidade, segurança e visão profunda das coisas, em português correto, ficou patente que a senadora acreana possui qualificações para ser apresentada como candidata a presidente da República em 2010. Mais que tudo, diante do cansaço nacional com os rumos da política brasileira, o nome de Marina Silva, limpo e confiável, surge com força poderosa. Embora seja natural que se possa fazer alguma restrição à senadora, como no caso de sua concordância com a divisão do Ibama e da transposição do São Francisco, o fato é que ela passa imagem de pessoa confiável. Na entrevista que deu, foi clara, por exemplo, quanto às influências que recebeu em sua formação política: teologia da libertação, Chico Mendes, Clodovis Boff, PT, movimento dos seringueiros. Tendo sido alfabetizada aos 16 anos, conseguiu por seu esforço e capacidade, aos 19, entrar na universidade. Nesse período, trocou a vida fácil do convento em que estudava, com possibilidade de ficar três anos em formação no Rio de Janeiro, para sobreviver por si própria colaborando na luta dos seringueiros. Para tanto, foi empregada doméstica e contou com a compreensão de patrões altruístas. Doente de hepatite aos 13 anos, foi tratada com remédio para malária, tóxico, o qual agravou sua condição. Mais tarde, contraiu leishmaniose. Como o pai não podia comprar o melhor remédio de que precisava para combate ao mal, tomou um substituto mais barato, à base de antimônio. Dele resultaram seqüelas penosas de que sofre nos tempos atuais.
Mais interessante, porém, é a posição esclarecida, lúcida, articulada, da senadora com relação aos problemas que ela, de modo preciso, identifica como “sócio-ambientais”. Conhecendo de experiência própria o que isso significa, e havendo estudado as questões relevantes sobre o tema, Marina Silva possui uma prática política de defesa do meio ambiente. Sua vida inteira é uma luta pela causa que cada vez mais se mostra como o maior desafio da época atual. Infelizmente, no Brasil, os políticos de todos os matizes – do PT ao DEM, do PSDB ao PMDB –, com exceções raríssimas, defendem um pensamento único, “crescimentista”, que teve seu apogeu a partir dos anos 1950. Esse pensamento alimenta projetos como o chinês e foi a mola mestra da economia americana até a eleição de Obama. Continua sendo, porém, a ideologia brasileira por excelência, inclusive projetado de maneira irretorquível na prioridade máxima do governo Lula, o PAC – Programa de Aceleração do Crescimento. Sobre isso, Marina propõe sujeitar desenvolvimento a meio ambiente e meio ambiente a desenvolvimento.
O que a senadora, que fez uma opção corajosa e conseqüente ao sair do PT para filiar-se à sigla nanica do Partido Verde (PV), tem em mente é algo totalmente necessário nos tempos atuais: uma mudança de paradigma para se considerar o sistema ecológico como restrição aos planos da economia. Ela fala disso, ao combater a prevalência da ordem econômica sobre as condições de bem-estar humano e uso sustentável da natureza A mesma prevalência vigorava no governo do presidente Fernando Henrique. Disso tem consciência o ex-ministro Gustavo Krause, do Meio Ambiente, que encontrei em Olinda, em dezembro de 2002, no dia em que o nome de Marina foi indicado pelo presidente-eleito (Lula) para o cargo que fora seu. Disse-me Gustavo: “Achei arretado”. E teceu elogios à senadora. De sã consciência, esse é o sentimento de quem vê na ex-ministra aquilo que ela significa – uma novidade alvissareira na política nacional.
domingo, 13 de setembro de 2009
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
CNF - Encontro ex-alunos nas montanhas de Friburgo
Artigo publicado, DP, 8.9.2009
Clóvis Cavalcanti
Economista ecológico e pesquisador social
Nestes dias em que a realização da Mostra Internacional de Música em Olinda (Mimo) aumenta os encantos da cidade, a sensação de prazer não se torna mais consistente porque é visível em toda parte a deterioração urbana da primeira Capital Brasileira da Cultura. Indo-se, por exemplo, da praça do Carmo para o Alto da Sé, tem-se o desconforto de passar pelo adro do convento de São Francisco, submetido há pouco tempo a terrível desfiguração. Além disso, tanto o movimento de veículos pelo local, antes muito fluido, quanto o acesso de pessoas que vêm das ruas que desembocam em frente ao cruzeiro do convento enfrentam obstáculos perigosos. O largo do cruzeiro é obra inacabada e sem funcionalidade: medíocre. Parte do calçamento da ladeira de São Francisco, assentada sem cuidados adequados, apresenta afundamentos. Pior situação é a da avenida que vai da praça do Carmo, passando pelo Fortim, na direção das praias. Obra terminada há menos de seis meses, não resiste ao movimento de veículos, intenso ali, inclusive por ser roteiro de ônibus. Em muitos trechos, o calçamento de paralelepípedos da via está se soltando, formando ondulações pelas quais o trânsito se processa de maneira lenta; daí, aumentam os engarrafamentos no horário das 18h-20h. É incrível, na verdade, como um trabalho de muitos meses se esvai em pouquíssimo tempo: dinheiro público (mais uma vez) malbaratado. Quem pagará pelo prejuízo?
Chegando ao Alto da Sé, a pessoa que ali for terá uma triste visão de caos inconcebível. Está tudo escavado, fora de ordem: um atropelo que não parece ter fim. Enorme placa, que enfeia a praça e atrapalha a visão, informa que a obra “terminará” no dia 29.6.2009. A propósito, outra placa descomunal, no Complexo de Salgadinho, perto da ponte da Ilha do Maruim, indica que se está fazendo a requalificação do Alto da Sé, com a informação grandiloqüente: “Mais uma obra do Governo do Estado”. Aliás, o que não falta em Olinda são placas de propaganda de empreendimentos governamentais – da União, estado, município. Enquanto isso, o cenário em muitos espaços se deteriora, se empobrece. Em outros locais, como no Bonsucesso, são esgotos a céu aberto que empestam e desfiguram uma cidade tão especial como Olinda. Bem em frente à sede do Homem da Meia-Noite – agradável patrimônio olindense – escorre água imunda, de péssimo odor, pestilenta, tirando o prazer das refeições de quem mora naquelas bandas, sem contar o perigo que isso representa para a saúde pública. Ao mesmo tempo, falta água potável nas casas dos moradores da Cidade Alta. No domingo 23 de agosto, quando fui ao banheiro pela manhã, sumira a água de minha casa. Mesmo com 6 mil litros de reserva, tínhamos ficado completamente sem o liquido. Mas logo me consolei (??): na casa de Vanessa Ava, minha aluna, no Bonsucesso, a água não chegava há oito dias!Esse é o panorama de uma cidade especial – maltratada, abandonada, sem gestores. Os encantos do Mimo – que Vera Milet, minha amiga moradora do Alto da Sé, diz que dão a Olinda ares mais civilizados – convivem com mazelas injustificáveis. Se a isso se soma o desastre ecológico deixado no Parque Memorial Arcoverde, portão de acesso da cidade, pelo Cirque du Soleil, a sensação dos olindenses não pode ser outra que de desencanto e tristeza. Pior: não se tem a quem recorrer. Beneficiando-se do fato de ser amigo do presidente Lula, do governador Eduardo Campos, da ex-prefeita Luciana Santos, agora a todo-poderosa da ciência, tecnologia (e meio ambiente) em Pernambuco, o prefeito Renildo Calheiros, um não-olindense, parece ter sumido.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Artigo publicado DP, 23 ago 2009
Clóvis Cavalcanti
Economista ecológico e pesquisador social
O que era para ser evento agradável e salutar – as exibições do Cirque du Soleil em Olinda – transformou-se em transtorno lamentável para o ambiente e população olindenses. Quem quiser comprová-lo é só passar junto do Parque Memorial Arcoverde e olhar para o deserto de cor escura deixado pelo empreendimento canadense que, em sua terra, tem um discurso de proteção ambiental. Onde havia vegetação, árvores, dois campos de futebol (“duas poças de lama”, segundo uma autoridade do turismo de Pernambuco), duas quadras de tênis e mais espaços de lazer restou um tapete duro de enormes paralelepípedos recobertos de cimento e asfalto. As tais “poças de lama” viraram pavimento de praça de eventos. Como lama, serviam para jogos de futebol; do jeito que estão, perderam serventia. Quando muito, poderiam virar estacionamento de automóveis. Foi nisso, aliás, em que se converteu uma área do Memorial Arcoverde durante sua imprópria ocupação pelo Cirque du Soleil. É incrível como isso pôde acontecer em Pernambuco: parque de uso pela população passar a ser estacionamento! Fez-se assim para facilitar a vida dos privilegiados (dizem que foram 50 mil pessoas) que foram assistir aos espetáculos do circo. E ainda se cortaram 30 árvores no local, como se um sacrifício desse para beneficio de caráter limitadíssimo fosse a coisa mais besta do mundo. Na verdade, ele é assim considerado no contexto das atitudes antiecológicas que caracterizam não só as autoridades, mas a própria sociedade brasileira. Muitos dos espectadores do Cirque du Soleil – inclusive gente da minha própria família (nenhum filho meu) – têm preocupações ambientais, mas não se incomodaram nem um pouco diante do fato inconteste de que se cometeu um crime contra a ecologia, à luz de todos e sob a permissão das autoridades, para que os artistas do Cirque se exibissem. Há melhor prova de visão antiecologista?
Já agora, diante do fato consumado, vem a notícia de que o Cirque du Soleil fez uma “doação” de 1,2 milhão de reais para suavizar o prejuízo que causou. Esse é mais um elemento que caracteriza o antiecologismo reinante. Pensa-se que, com dinheiro, se podem compensar perdas ambientais. Fica parecendo que os canadenses são um paradigma de generosidade quando, de fato, cometeram um crime e querem dele se redimir indenizando pelos prejuízos causados. Ninguém perguntou à população beneficiária dos serviços do Memorial Arcoverde o que ela pensava da perda que sofreria com o Cirque du Soleil. Agora, depois da desgraceira, querem consultá-la para definir o que fazer com o presente deixado para recuperação do parque. Fazer novos campos de futebol em cima da pavimentação? Não, isso não pode. Desfazer o espaço endurecido para que nele reapareçam as “poças de lama”? Não: o custo de desmanchar o mal-feito é demasiado. A população pode “escolher” – desde que não peça coisas absurdas.
É curioso como nenhuma autoridade do governo estadual ou da Prefeitura de Olinda se apresentou par desculpar-se do que se fez de equivocado no Memorial Arcoverde. O que se sabe é que nas exibições do Cirque du Soleil não faltou gente desse escalão da sociedade para desfrutar da plasticidade dos artistas da troupe canadense. Que o grupo do Cirque não é nada tolo se percebe dos preços exorbitantes que cobrou na fase da venda antecipada de ingressos. Preços que, nos EUA, custam, no máximo, 150 dólares, valiam aqui quase o dobro. Diante da venda medíocre de entradas, baixaram-se os preços, mostrando como foram bobos os que se apressaram em comprá-las com antecedência. Dessa forma, é fácil ganhar dinheiro. Proteção governamental, destruição do meio ambiente e abuso de consumidores ingênuos – uma fórmula boa que evidencia falta de orgulho de raça e de compromisso ecológico da nossa sociedade. Merece aplausos?