segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Artigo Publicado
Diario de Pernambuco, Sabado de Zé Pereira, Dia do Galo, 20 fev. 2009
CARNAVAL, ALEGRIA E VERGONHA
Clóvis Cavalcanti
Economista e pesquisador social
Como tenho dito neste espaço, gosto imensamente do carnaval. Trata-se, para mim, de momento alegre que desperta sentimentos lúdicos sufocados ou adormecidos. É bom ver a festa ir chegando: nos acertos de marcha de muitos blocos; nas compras na região do Mercado de São José; na abertura oficial dos festejos, este ano, em Olinda com uma orquestra de frevo de quase 600 músicos (uma beleza); no baile do Bloco da Saudade; na saída de troças (como Turma da Jaqueira, Tá Maluco, Pisando na Jaca); na deliciosa apresentação do Escuta Levino – tudo no período que antecede a festa de Momo. Aí chega o sempre esperado Galo da Madrugada, a que não falto. Este ano, contudo, para seu desfile, inventaram uma babaquice: trazer bandas (Calypso e Saia Rodada) que, como disse o internauta Ruy Sarinho, são “duas porcarias do brega mais cafona”. Diante desse tipo de atitude, sinto vergonha de ser pernambucano. Nós, que temos um hino – tocado no carnaval – que fala de heróis, de um “povo coberto de glórias”, de “bravos guerreiros”, cedemos de forma vil e covarde a uma invasão de ritmos da mais pobre inspiração. Francamente, como escreveu Sarinho, uma coisa dessas é como “jogar na lata do lixo tudo o que a agremiação conquistou durante a sua história, até aqui”. Por que não honrar o legado de Enéas Freire?
Outro motivo de vergonha para mim, no Carnaval, é testemunhar, a cada ano, o exagero da exibição de desigualdade que o tríduo proporciona. Veja-se o caso, outra vez, do Galo. Tudo bem que, quem pode, exponha sua riqueza como achar melhor – embora existam super-ricos como Warren Buffett ou Antônio Ermírio de Moraes que preferem um perfil discreto. Discretíssimo até, quanto a Buffett, um dos dez homens mais ricos do mundo. O certo é que é inadmissível que camarotes do Galo, de caráter oficial, tenham que ser tão ostensivamente brindados por benesses. Para quê isso? É triste ver que socialistas e petistas contribuem para acentuar as disparidades de níveis de vida da população. Por que o governador não convida gente do povo apenas – lavadeiras, mecânicos, policiais, enfermeiras, pedreiros, telefonistas, professores – para seu camarote de tantas mordomias, justificando a denominação de seu PSB? Por que também o prefeito do Recife, de um partido que se diz de trabalhadores, permite que ele assuma os ares de uma agremiação de oligarcas? Enquanto isso, muita gente que gostaria de desfrutar de um mínimo de alegria no carnaval, é obrigado a fazer de tudo na ocasião para ganhar alguns trocados. Basta ver a multidão de vendedores de bebida e comida, de apanhadores de latas que se misturam aos foliões. Muitas vezes, são crianças, até de menos de 10 anos de idade. Tenho visto esse povo com muita tristeza. Não é raro que encontre pessoas tentando dançar enquanto carregam um isopor cheio de latinhas de cerveja na cabeça. Isso me dá muita vergonha.
Celso Furtado (1920-2004) – ele próprio um exemplo de sobriedade e ascetismo ou, como diz Tania Bacelar, de comportamento republicano – formulou reflexões importantes a esse respeito (não com o carnaval em mente). Sua preocupação era a concentração de renda, como a exibida pelos próprios governantes nos dias de Momo. Segundo Furtado, “toda economia concentradora de renda tende a impedir a formação de mercado interno”, não deixando que a demanda se expanda e formando excedentes populacionais. Nesse marco, as relações econômicas que se estabelecem “tendem sempre a formas de exploração”. Não é isso o que se quer de um país com perfil digno, com uma cidadania que se estenda a todos. A ocasião do carnaval, que proporciona tanta alegria, não pode ser motivo para que se negue a essência de uma terra que proclama os valor de seus brios, “sentinela indormida e sagrada” que é, defendendo “da pátria os lauréis”.
CARNAVAL, ALEGRIA E VERGONHA
Clóvis Cavalcanti
Economista e pesquisador social
Como tenho dito neste espaço, gosto imensamente do carnaval. Trata-se, para mim, de momento alegre que desperta sentimentos lúdicos sufocados ou adormecidos. É bom ver a festa ir chegando: nos acertos de marcha de muitos blocos; nas compras na região do Mercado de São José; na abertura oficial dos festejos, este ano, em Olinda com uma orquestra de frevo de quase 600 músicos (uma beleza); no baile do Bloco da Saudade; na saída de troças (como Turma da Jaqueira, Tá Maluco, Pisando na Jaca); na deliciosa apresentação do Escuta Levino – tudo no período que antecede a festa de Momo. Aí chega o sempre esperado Galo da Madrugada, a que não falto. Este ano, contudo, para seu desfile, inventaram uma babaquice: trazer bandas (Calypso e Saia Rodada) que, como disse o internauta Ruy Sarinho, são “duas porcarias do brega mais cafona”. Diante desse tipo de atitude, sinto vergonha de ser pernambucano. Nós, que temos um hino – tocado no carnaval – que fala de heróis, de um “povo coberto de glórias”, de “bravos guerreiros”, cedemos de forma vil e covarde a uma invasão de ritmos da mais pobre inspiração. Francamente, como escreveu Sarinho, uma coisa dessas é como “jogar na lata do lixo tudo o que a agremiação conquistou durante a sua história, até aqui”. Por que não honrar o legado de Enéas Freire?
Outro motivo de vergonha para mim, no Carnaval, é testemunhar, a cada ano, o exagero da exibição de desigualdade que o tríduo proporciona. Veja-se o caso, outra vez, do Galo. Tudo bem que, quem pode, exponha sua riqueza como achar melhor – embora existam super-ricos como Warren Buffett ou Antônio Ermírio de Moraes que preferem um perfil discreto. Discretíssimo até, quanto a Buffett, um dos dez homens mais ricos do mundo. O certo é que é inadmissível que camarotes do Galo, de caráter oficial, tenham que ser tão ostensivamente brindados por benesses. Para quê isso? É triste ver que socialistas e petistas contribuem para acentuar as disparidades de níveis de vida da população. Por que o governador não convida gente do povo apenas – lavadeiras, mecânicos, policiais, enfermeiras, pedreiros, telefonistas, professores – para seu camarote de tantas mordomias, justificando a denominação de seu PSB? Por que também o prefeito do Recife, de um partido que se diz de trabalhadores, permite que ele assuma os ares de uma agremiação de oligarcas? Enquanto isso, muita gente que gostaria de desfrutar de um mínimo de alegria no carnaval, é obrigado a fazer de tudo na ocasião para ganhar alguns trocados. Basta ver a multidão de vendedores de bebida e comida, de apanhadores de latas que se misturam aos foliões. Muitas vezes, são crianças, até de menos de 10 anos de idade. Tenho visto esse povo com muita tristeza. Não é raro que encontre pessoas tentando dançar enquanto carregam um isopor cheio de latinhas de cerveja na cabeça. Isso me dá muita vergonha.
Celso Furtado (1920-2004) – ele próprio um exemplo de sobriedade e ascetismo ou, como diz Tania Bacelar, de comportamento republicano – formulou reflexões importantes a esse respeito (não com o carnaval em mente). Sua preocupação era a concentração de renda, como a exibida pelos próprios governantes nos dias de Momo. Segundo Furtado, “toda economia concentradora de renda tende a impedir a formação de mercado interno”, não deixando que a demanda se expanda e formando excedentes populacionais. Nesse marco, as relações econômicas que se estabelecem “tendem sempre a formas de exploração”. Não é isso o que se quer de um país com perfil digno, com uma cidadania que se estenda a todos. A ocasião do carnaval, que proporciona tanta alegria, não pode ser motivo para que se negue a essência de uma terra que proclama os valor de seus brios, “sentinela indormida e sagrada” que é, defendendo “da pátria os lauréis”.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Carnaval 2009 em Pernambuco
sábado, 14 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
DP, 8.2.2009
CRESCIMENTO OU DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL?
Clóvis Cavalcanti - Economista e pesquisador social
O mundo hoje impõe que se encontre um modelo de economia que seja sustentável. Daí, o aparecimento da noção do desenvolvimento sustentável. A propósito, fui procurado recentemente por uma universitária do Rio Grande do Norte, Jessicleide Dantas, que me fez a seguinte pergunta: “Como o senhor entende o desenvolvimento sustentável?” Respondi: “Na verdade, só pode haver desenvolvimento que seja sustentável. Pois se ele é insustentável, vai acabar. Não é, portanto, desenvolvimento, mas alguma coisa como um espasmo. O desenvolvimento sustentável é aquele que dura. Quem o sustenta em primeiro lugar é a natureza, o ecossistema, do qual dependemos para tudo. Dessa forma, para que possa sustentar-se, ele tem que levar em conta as regras e os limites da natureza. Sem descuidar do bem-estar humano, dos valores da cultura, da realização plena da cidadania”. Minha aluna quis saber ainda como se entende a sustentabilidade do ponto de vista sócio-ambiental. Expliquei: “O desenvolvimento, para ser sustentável, deve usar os recursos renováveis a um ritmo inferior ao da sua reprodução; e os não-renováveis, procurando investir os rendimentos deles obtidos para o desenvolvimento científico e tecnológico no sentido de encontrar substitutos renováveis seus. No fundo, trata-se de minimizar o uso da natureza, com obtenção de máximo bem-estar social”.
Jessicleide Dantas argumentou: “Como sabemos, na eterna busca por crescimento econômico, o homem esqueceu do equilíbrio necessário à sociedade para crescer de modo sustentável. Será que um dia teremos uma sociedade com essa configuração? Quais as experiências que poderíamos apontar nesta direção?” Esclareci: “Nunca existiu uma ‘eterna busca por crescimento econômico’. De fato, a civilização tem 5.000 anos e o crescimento só começou a acontecer nos últimos 250 anos. Hoje se pensa e age como se o crescimento econômico fosse a regra para a Humanidade. Não é. Crescimento significa necessariamente esgotamento de recursos, destruição de alguma coisa do meio ambiente. Não existe nenhum exemplo de sociedade desenvolvida que seja ecologicamente sustentável, simplesmente porque as sociedades desenvolvidas (Grã-Bretanha, Estados Unidos, Alemanha, etc.) chegaram a esse nível há menos de 250 anos. Sustentáveis foram as sociedades indígenas no Brasil que tinham 12.000 anos de existência quando os portugueses chegaram aqui”. Quem garante que a sociedade americana vai ser como é daqui a mais 250 anos? Ninguém garante, nem mesmo daqui a vinte anos! E daqui a 12.000?
Caberia então a pergunta de se é possível equilibrar crescimento econômico ilimitado (“espetáculo do crescimento”) com um meio ambiente saudável. A perspectiva da ecologia é que não. Crescimento implica sempre menos meio ambiente. De fato, o planeta não cresce; se a economia cresce – e ela é parte do planeta –, obviamente menos meio ambiente restará. Quanto mais gente na Terra, quanto mais produção econômica, tanto menos natureza. Em outras palavras, como falam os economistas, existe aí um “custo de oportunidade ambiental”. O que pode, sim, acontecer é um desenvolvimento ambientalmente sustentável. A questão é que desenvolvimento (que significa mudança, evolução, progresso) não é crescimento (que se entende como aumento, expansão). Amartya Sen conceitua o desenvolvimento como “expansão das liberdades”: mais cidadania. Isso não é crescimento, embora possa incluí-lo. Sen é Prêmio Nobel de Economia de 1998; sabe do que está tratando. Daí, não fazer sentido falar-se em crescer sustentavelmente. Desenvolver-se sustentavelmente, porém, é possível. E isso é o que acontece com o ser humano (e todos os organismos vivos): crescem; param de crescer; e nunca deixam de desenvolver-se – até o fim inevitável.
Clóvis Cavalcanti - Economista e pesquisador social
O mundo hoje impõe que se encontre um modelo de economia que seja sustentável. Daí, o aparecimento da noção do desenvolvimento sustentável. A propósito, fui procurado recentemente por uma universitária do Rio Grande do Norte, Jessicleide Dantas, que me fez a seguinte pergunta: “Como o senhor entende o desenvolvimento sustentável?” Respondi: “Na verdade, só pode haver desenvolvimento que seja sustentável. Pois se ele é insustentável, vai acabar. Não é, portanto, desenvolvimento, mas alguma coisa como um espasmo. O desenvolvimento sustentável é aquele que dura. Quem o sustenta em primeiro lugar é a natureza, o ecossistema, do qual dependemos para tudo. Dessa forma, para que possa sustentar-se, ele tem que levar em conta as regras e os limites da natureza. Sem descuidar do bem-estar humano, dos valores da cultura, da realização plena da cidadania”. Minha aluna quis saber ainda como se entende a sustentabilidade do ponto de vista sócio-ambiental. Expliquei: “O desenvolvimento, para ser sustentável, deve usar os recursos renováveis a um ritmo inferior ao da sua reprodução; e os não-renováveis, procurando investir os rendimentos deles obtidos para o desenvolvimento científico e tecnológico no sentido de encontrar substitutos renováveis seus. No fundo, trata-se de minimizar o uso da natureza, com obtenção de máximo bem-estar social”.
Jessicleide Dantas argumentou: “Como sabemos, na eterna busca por crescimento econômico, o homem esqueceu do equilíbrio necessário à sociedade para crescer de modo sustentável. Será que um dia teremos uma sociedade com essa configuração? Quais as experiências que poderíamos apontar nesta direção?” Esclareci: “Nunca existiu uma ‘eterna busca por crescimento econômico’. De fato, a civilização tem 5.000 anos e o crescimento só começou a acontecer nos últimos 250 anos. Hoje se pensa e age como se o crescimento econômico fosse a regra para a Humanidade. Não é. Crescimento significa necessariamente esgotamento de recursos, destruição de alguma coisa do meio ambiente. Não existe nenhum exemplo de sociedade desenvolvida que seja ecologicamente sustentável, simplesmente porque as sociedades desenvolvidas (Grã-Bretanha, Estados Unidos, Alemanha, etc.) chegaram a esse nível há menos de 250 anos. Sustentáveis foram as sociedades indígenas no Brasil que tinham 12.000 anos de existência quando os portugueses chegaram aqui”. Quem garante que a sociedade americana vai ser como é daqui a mais 250 anos? Ninguém garante, nem mesmo daqui a vinte anos! E daqui a 12.000?
Caberia então a pergunta de se é possível equilibrar crescimento econômico ilimitado (“espetáculo do crescimento”) com um meio ambiente saudável. A perspectiva da ecologia é que não. Crescimento implica sempre menos meio ambiente. De fato, o planeta não cresce; se a economia cresce – e ela é parte do planeta –, obviamente menos meio ambiente restará. Quanto mais gente na Terra, quanto mais produção econômica, tanto menos natureza. Em outras palavras, como falam os economistas, existe aí um “custo de oportunidade ambiental”. O que pode, sim, acontecer é um desenvolvimento ambientalmente sustentável. A questão é que desenvolvimento (que significa mudança, evolução, progresso) não é crescimento (que se entende como aumento, expansão). Amartya Sen conceitua o desenvolvimento como “expansão das liberdades”: mais cidadania. Isso não é crescimento, embora possa incluí-lo. Sen é Prêmio Nobel de Economia de 1998; sabe do que está tratando. Daí, não fazer sentido falar-se em crescer sustentavelmente. Desenvolver-se sustentavelmente, porém, é possível. E isso é o que acontece com o ser humano (e todos os organismos vivos): crescem; param de crescer; e nunca deixam de desenvolver-se – até o fim inevitável.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
DP, dom. 25.1.2009
ROSA, ROSINHA, ROSARI
Clóvis Cavalcanti - Economista e pesquisador social
Todo mundo conhece a bela, sensual e gostosa manga-rosa. Mas quantos conhecerão as mangas rosinha e rosari? Nas duas últimas semanas, saboreei ambas pela primeira vez. Encontrei a rosinha no interior do Rio Grande do Norte e comprei algumas rosari no ótimo restaurante Mangai, de João Pessoa (pena que não haja uma filial dele no Recife-Olinda). Eu não conhecia essas espécies de manga. Maravilhei-me. A rosinha é menor, de um amarelo claro no exterior, deliciosa. A rosari é robusta, do tamanho de um melão, ótima. E tem a superfície ondulada, ao estilo de uma jaca. A cor é a mesma da rosa. Que beleza! Como se não bastasse esse passeio pelo mundo surpreendente e diverso das mangas, comprei manga-seda a caminho de Gravatá, há poucos dias, e ganhei belas mangas-primavera, amarelo-ouro, de Olinda, da casa de minha amiga e grande pintora da natureza Guita Charifker. Minha filha, Claudinha, por sua vez, me falou da manga-extrema, de carne parecendo manteiga, que há no lugar de São Paulo, Nova Veneza, onde esteve vivendo algum tempo. Traz-me uma satisfação imensa estar diante dessas dádivas incomparáveis da natureza. Todavia, preocupa-me a invasão de outra manga, a tomy, cada vez mais onipresente nas feiras e supermercados, completamente desconhecida do panorama pernambucano há vinte anos. Trata-se de uma fruta sem graça, que parece tomar anabolisantes, produto de uma economia que visa apenas lucros e uniformiza a natureza.
O mesmo problema se dá com relação ao caju, até com mais gravidade, por se perceber no seu caso um aparente processo de extinção da extraordinária diversidade da espécie. Há vinte anos, esperava-se ansiosamente a safra de caju no Recife e região vizinha, a começar em outubro. Quando surgiam os primeiros frutos, viam-se nas ruas não um único tipo, mas múltiplos tipos à venda – amarelos, vermelhos, rosados, grandes, redondos, compridos, achatados, com ou sem rachões, com ou sem manchas. Agora, não. Desde junho, surge uma única espécie da fruta, de tons rosa, todos do mesmo tamanho, que os vendedores arrumam em poluentes bacias de isopor, como se fossem produtos de uma fábrica que os homogeneizasse (a arrumação antiga era em “rodas” ou em cestas de folha de coqueiro). Adoro caju, mas esses eu não compro. Digo ao meu vendedor de frutas, e ele concorda comigo: “são clonados”. Nos meus passeios deste janeiro, pude apreciar a variedade de cajus que ainda existe por aí, sobretudo nas praias da Paraíba e Rio G. Norte (em Pernambuco, só se pensa em destruir para a construção de resorts, refinarias, estradas, uma barbaridade!). Chupei suculentos cajus, tomei alguns com cachaça (que combinação incrível!), admirei seu cheiro e sua forma. Fiz o mesmo com relação às mangabas, que também estão sumindo em Pernambuco, mas existem nos estados vizinhos ao norte.
É uma pena tudo isso. As novas gerações não sabem nada da mangaba. Sabem só um pouco do caju – de que Mauro Mota tão bem tratou em seu clássico de 1956 O Cajueiro Nordestino, onde já abordava o tema da devastação. Vale lembrar que o grave desse panorama é a lógica do sistema que o impõe, uma lógica que se contrapõe diretamente à lógica da vida. A lógica do sistema é linear, promove a concorrência e tende à uniformização, à monocultura, à acumulação privada. A outra, da vida, é complexa, plena de diversidade, de interdependências, de complementaridades e cooperação na busca do bem de todos os seres. Este modelo também produz – e com perfeição. É, porém, para servir à vida, e não para lucro pecuniário privado de ninguém. Seu objetivo é o equilíbrio com a natureza, a harmonia com a comunidade da vida e a inclusão de todos os seres humanos. É um paradigma muito anterior ao homem e à economia, que subsiste há 3 bilhões de anos. Enquanto isso, a nossa “civilização” só tem cinco mil.
Clóvis Cavalcanti - Economista e pesquisador social
Todo mundo conhece a bela, sensual e gostosa manga-rosa. Mas quantos conhecerão as mangas rosinha e rosari? Nas duas últimas semanas, saboreei ambas pela primeira vez. Encontrei a rosinha no interior do Rio Grande do Norte e comprei algumas rosari no ótimo restaurante Mangai, de João Pessoa (pena que não haja uma filial dele no Recife-Olinda). Eu não conhecia essas espécies de manga. Maravilhei-me. A rosinha é menor, de um amarelo claro no exterior, deliciosa. A rosari é robusta, do tamanho de um melão, ótima. E tem a superfície ondulada, ao estilo de uma jaca. A cor é a mesma da rosa. Que beleza! Como se não bastasse esse passeio pelo mundo surpreendente e diverso das mangas, comprei manga-seda a caminho de Gravatá, há poucos dias, e ganhei belas mangas-primavera, amarelo-ouro, de Olinda, da casa de minha amiga e grande pintora da natureza Guita Charifker. Minha filha, Claudinha, por sua vez, me falou da manga-extrema, de carne parecendo manteiga, que há no lugar de São Paulo, Nova Veneza, onde esteve vivendo algum tempo. Traz-me uma satisfação imensa estar diante dessas dádivas incomparáveis da natureza. Todavia, preocupa-me a invasão de outra manga, a tomy, cada vez mais onipresente nas feiras e supermercados, completamente desconhecida do panorama pernambucano há vinte anos. Trata-se de uma fruta sem graça, que parece tomar anabolisantes, produto de uma economia que visa apenas lucros e uniformiza a natureza.
O mesmo problema se dá com relação ao caju, até com mais gravidade, por se perceber no seu caso um aparente processo de extinção da extraordinária diversidade da espécie. Há vinte anos, esperava-se ansiosamente a safra de caju no Recife e região vizinha, a começar em outubro. Quando surgiam os primeiros frutos, viam-se nas ruas não um único tipo, mas múltiplos tipos à venda – amarelos, vermelhos, rosados, grandes, redondos, compridos, achatados, com ou sem rachões, com ou sem manchas. Agora, não. Desde junho, surge uma única espécie da fruta, de tons rosa, todos do mesmo tamanho, que os vendedores arrumam em poluentes bacias de isopor, como se fossem produtos de uma fábrica que os homogeneizasse (a arrumação antiga era em “rodas” ou em cestas de folha de coqueiro). Adoro caju, mas esses eu não compro. Digo ao meu vendedor de frutas, e ele concorda comigo: “são clonados”. Nos meus passeios deste janeiro, pude apreciar a variedade de cajus que ainda existe por aí, sobretudo nas praias da Paraíba e Rio G. Norte (em Pernambuco, só se pensa em destruir para a construção de resorts, refinarias, estradas, uma barbaridade!). Chupei suculentos cajus, tomei alguns com cachaça (que combinação incrível!), admirei seu cheiro e sua forma. Fiz o mesmo com relação às mangabas, que também estão sumindo em Pernambuco, mas existem nos estados vizinhos ao norte.
É uma pena tudo isso. As novas gerações não sabem nada da mangaba. Sabem só um pouco do caju – de que Mauro Mota tão bem tratou em seu clássico de 1956 O Cajueiro Nordestino, onde já abordava o tema da devastação. Vale lembrar que o grave desse panorama é a lógica do sistema que o impõe, uma lógica que se contrapõe diretamente à lógica da vida. A lógica do sistema é linear, promove a concorrência e tende à uniformização, à monocultura, à acumulação privada. A outra, da vida, é complexa, plena de diversidade, de interdependências, de complementaridades e cooperação na busca do bem de todos os seres. Este modelo também produz – e com perfeição. É, porém, para servir à vida, e não para lucro pecuniário privado de ninguém. Seu objetivo é o equilíbrio com a natureza, a harmonia com a comunidade da vida e a inclusão de todos os seres humanos. É um paradigma muito anterior ao homem e à economia, que subsiste há 3 bilhões de anos. Enquanto isso, a nossa “civilização” só tem cinco mil.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
DP - dom, 11.1.2009
O ANTITURISMO DE OLINDA
Clóvis Cavalcanti - Economista e pesquisador social
Por mais boa vontade que se tenha para fazer vista grossa da desordem, o fato é que Olinda, que ostenta o laurel de Patrimônio da Humanidade, concedido pela Unesco, com sua desarrumação, está cada vez mais distante de fazer jus ao galardão. Sou morador de lá desde 1978. Tive sempre grande paixão pelo Marim, que oferece paisagens e desenho urbano tão especial. Concordo inteiramente com o verso de Carlos Pena Filho (1929-1960), segundo o qual “Olinda é só para os olhos”. Há trinta anos, citei-o em artigo que escrevi para o Jornal do Brasil, em que fazia a exaltação da cidade para onde mudara há pouco. De lá para cá, tenho presenciado um processo de decadência triste e inexorável, que faz de Olinda, apesar de intervenções que pretendem conservá-la, um espaço que se degrada. O Alto da Sé, por exemplo, que deveria ser o paradigma da conservação, pois para lá convergem todos os visitantes que chegam à cidade (passando sempre, inevitavelmente, em frente de minha casa), apresenta um estado de desfiguração inominável. Nesta época do ano, em que pessoas de outros estados e países me visitam em bom número, costumo ir com mais freqüência ao Alto da Sé. Saio de lá deprimido.
Em 1978, o local era ainda muito preservado. Podia-se avistar de lá o Horto Del Rey. Só havia uma tapioqueira, D. Conceição, que fazia ponto na esquina da Sé, sem tamboretes, toldas, etc. Sua tapioca era gostosa, feita com asseio no rigor da melhor tradição. Quem vai hoje à praça, dali sai enojado de tanta sujeira. As próprias tapiocas, que provei recentemente, são um atentado à saúde pública. Os pontos de venda de comida e bebida não obedecem a nenhum plano urbanístico. Constituem amontoados sem ordem. O jardim – de configuração paisagística imprópria para um local de valor histórico – encontra-se destruído. Há construções absolutamente irregulares por ali, inclusive de lojas que agridem o sentido do título de “World Heritage” da Unesco dado a Olinda. Enorme placa de propaganda do governo – outro atentado à estética – anuncia defronte da catedral que o sítio está sendo urbanizado e que lá se constrói um mercado de artesanato. Ótimo que se faça isso. Mas é preciso que se tenha que deixar que antes uma destruição completa aconteça? Isso também não justifica a sujeira, a podridão, o estado de miséria que ali se vê, semelhante ao pior do que já observei na África (Mali, Burkina Fasso, Níger, Angola). E para quê placa tão gigantesca de propaganda do governo?! Aliás, algo de tamanho totalmente descomunal – e impróprio – é a placa do gasoduto que os governos federal e estadual implantaram na BR-232, à altura da entrada de Moreno: eleva-se à altura de um edifício de cinco pisos! Um perigo para a atenção dos motoristas.
A desfiguração de Olinda se vê com tristeza no adro do convento de São Francisco, meu vizinho. Para proteger ruínas de possível interesse histórico, cavou-se um buraco e transformou-se a praça, que era de desenho agradável, em monstrengo disforme que dificulta seriamente a movimentação de pessoas menos ágeis (onde estão as leis que impõem facilidade para quem não tem condições de locomover-se facilmente?). Na praça do Carmo, objeto de intervenções que a têm tornado mais atraente – interrompidas, porém, antes que se desse o acabamento final –, uma invasão se serviços informais de bebida e comida nos finais de semana espanta qualquer turista desavisado que por ali vá fazer sua curtição. A calçada, renovada com cuidados, vira piso encardido, fétido. A aproximação do carnaval, aliás, aterroriza os olindenses que pagam impostos para que a cidade seja bem cuidada. Não é degradação o que se quer. E o prefeito recém-empossado ainda diz que a folia de Olinda deve se estender mais pela noite afora. Vê-se que S. Excia. é mesmo um forasteiro.
Clóvis Cavalcanti - Economista e pesquisador social
Por mais boa vontade que se tenha para fazer vista grossa da desordem, o fato é que Olinda, que ostenta o laurel de Patrimônio da Humanidade, concedido pela Unesco, com sua desarrumação, está cada vez mais distante de fazer jus ao galardão. Sou morador de lá desde 1978. Tive sempre grande paixão pelo Marim, que oferece paisagens e desenho urbano tão especial. Concordo inteiramente com o verso de Carlos Pena Filho (1929-1960), segundo o qual “Olinda é só para os olhos”. Há trinta anos, citei-o em artigo que escrevi para o Jornal do Brasil, em que fazia a exaltação da cidade para onde mudara há pouco. De lá para cá, tenho presenciado um processo de decadência triste e inexorável, que faz de Olinda, apesar de intervenções que pretendem conservá-la, um espaço que se degrada. O Alto da Sé, por exemplo, que deveria ser o paradigma da conservação, pois para lá convergem todos os visitantes que chegam à cidade (passando sempre, inevitavelmente, em frente de minha casa), apresenta um estado de desfiguração inominável. Nesta época do ano, em que pessoas de outros estados e países me visitam em bom número, costumo ir com mais freqüência ao Alto da Sé. Saio de lá deprimido.
Em 1978, o local era ainda muito preservado. Podia-se avistar de lá o Horto Del Rey. Só havia uma tapioqueira, D. Conceição, que fazia ponto na esquina da Sé, sem tamboretes, toldas, etc. Sua tapioca era gostosa, feita com asseio no rigor da melhor tradição. Quem vai hoje à praça, dali sai enojado de tanta sujeira. As próprias tapiocas, que provei recentemente, são um atentado à saúde pública. Os pontos de venda de comida e bebida não obedecem a nenhum plano urbanístico. Constituem amontoados sem ordem. O jardim – de configuração paisagística imprópria para um local de valor histórico – encontra-se destruído. Há construções absolutamente irregulares por ali, inclusive de lojas que agridem o sentido do título de “World Heritage” da Unesco dado a Olinda. Enorme placa de propaganda do governo – outro atentado à estética – anuncia defronte da catedral que o sítio está sendo urbanizado e que lá se constrói um mercado de artesanato. Ótimo que se faça isso. Mas é preciso que se tenha que deixar que antes uma destruição completa aconteça? Isso também não justifica a sujeira, a podridão, o estado de miséria que ali se vê, semelhante ao pior do que já observei na África (Mali, Burkina Fasso, Níger, Angola). E para quê placa tão gigantesca de propaganda do governo?! Aliás, algo de tamanho totalmente descomunal – e impróprio – é a placa do gasoduto que os governos federal e estadual implantaram na BR-232, à altura da entrada de Moreno: eleva-se à altura de um edifício de cinco pisos! Um perigo para a atenção dos motoristas.
A desfiguração de Olinda se vê com tristeza no adro do convento de São Francisco, meu vizinho. Para proteger ruínas de possível interesse histórico, cavou-se um buraco e transformou-se a praça, que era de desenho agradável, em monstrengo disforme que dificulta seriamente a movimentação de pessoas menos ágeis (onde estão as leis que impõem facilidade para quem não tem condições de locomover-se facilmente?). Na praça do Carmo, objeto de intervenções que a têm tornado mais atraente – interrompidas, porém, antes que se desse o acabamento final –, uma invasão se serviços informais de bebida e comida nos finais de semana espanta qualquer turista desavisado que por ali vá fazer sua curtição. A calçada, renovada com cuidados, vira piso encardido, fétido. A aproximação do carnaval, aliás, aterroriza os olindenses que pagam impostos para que a cidade seja bem cuidada. Não é degradação o que se quer. E o prefeito recém-empossado ainda diz que a folia de Olinda deve se estender mais pela noite afora. Vê-se que S. Excia. é mesmo um forasteiro.
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