quinta-feira, 23 de julho de 2009

publicado no blog do JC - jul 2009

O ANTIECOLOGISMO BRASILEIRO
Clóvis Cavalcanti
Economista ecológico e pesquisador social

O Brasil é um país antiecológico? Como professor universitário da disciplina Meio Ambiente e Sociedade, como membro da Sociedade Internacional de Economia Ecológica, como pesquisador do desenvolvimento sustentável, e agricultor orgânico há 33 anos na minha propriedade, Fazenda do Tao (em Gravatá), não posso deixar de dizer sim à pergunta. De fato, a forma como o meio ambiente é entendido e usado no Brasil corrobora minha constatação. Ao invés de considerá-lo como fonte derradeira e insubstituível de vida, como efetivamente é, a sociedade brasileira – de suas elites e dirigentes às pessoas comuns – só o percebe como fonte inesgotável de recursos para máxima exploração. Paulo Prado, em Retrato do Brasil (1931), diagnostica o problema, atribuindo o espírito antiecológico nacional às origens do país, com seu afã de “cobiça insaciável, na loucura do enriquecimento rápido”. Sérgio Buarque, em Raizes do Brasil (1935), fala da personalidade antiecológica brasileira, caracterizada, segundo ele, pela ânsia de prosperidade a todo custo na “busca oca de títulos honoríficos, de posições e riqueza fáceis”. Em Nordeste (1937), belo livro de reflexão, Gilberto Freyre – primeiro cientista social brasileiro a empregar o “critério ecológico” na análise sociológica, o que faz nessa obra – confirma a percepção de Prado e Sérgio Buarque. Um dado atual a reafirma. Com efeito, do total da Mata Atlântica original, equivalente a 15% do território brasileiro, resta apenas uma fração de 7 por cento. Sem que, a despeito disso, se pare a insana destruição do inigualável bioma da floresta litorânea.

O espírito irresponsável dominante levou a que, agora mesmo, no Parque Memorial Arcoverde – único parque público de Olinda – se permitisse a instalação temporária de um espetáculo, o famoso Cirque du Soleil, à custa da destruição permanente de espaços de uso coletivo e vegetação crescida ao longo de vinte anos. Quem deixou que isso acontecesse? O governo do Estado, a prefeitura de Olinda, os omissos meios de comunicação do estado, a elite que vai assistir aos espetáculos (caríssimos), elite satisfeita com o interesse estreito de ver agora o que não aparece com freqüência aqui. Igual espírito irresponsável, sem compromisso algum com a saúde dos ecossistemas regionais, delira de prazer com a construção de uma refinaria de petróleo em Pernambuco, como se isso fosse a coisa mais inofensiva do mundo. Ora, o aquecimento global – demonstrado cabalmente pela ONU como fenômeno antropogênico – impõe que se reduza no mundo a emissão de CO2, gás que a queima do petróleo libera abundantemente (cada tonelada de combustível gera 3,2 t de dióxido de carbono). Como é que se justifica hoje um projeto que contribui para mais queima desse gás, como o de Suape? Não faz sentido, em um mundo inteligente, a expressão maravilhada da sociedade pernambucana diante da Refinaria Abreu e Lima – salvo por uma visão antiecologista que a permeie.

A visão, certamente, não é peculiar a Pernambuco. Trata-se de um traço nacional. Prova disso é o terrível fato de que a admirável legislação brasileira de proteção ambiental encontra-se atualmente sob ameaça de revogação. Ações no Congresso Nacional, tomadas sob a égide de um grupo que representa não mais que mil proprietários rurais, têm como principal objetivo aprovar novo Código Ambiental, revogando leis como a que criou a Política Nacional do Meio Ambiente, ou partes de leis como a de Crimes Ambientais e da Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, entre outros dispositivos. Quer dizer: trata-se de quebrar a espinha dorsal da proteção ambiental no Brasil. A justificativa é chocante, conforme relata a íntegra e admirável Senadora Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente: tudo teria começado quando se quis implementar a legislação ambiental vigente, com restrições ao crédito para infratores, fiscalização de ilícitos em tempo real e medidas inesperadas para conter o desmatamento proibido. Diz a senadora: “Enquanto ninguém estava cobrando, tudo bem. Foi o que ouvi, acreditem: com as tentativas de aplicação da lei, ‘ficou impossível’, e daí veio a avaliação de que tudo teria que mudar”. Mudar a lei para facilitar a destruição. A sociedade, o que faz? Omite-se. É ou não prova do antiecologismo – e do atraso – brasileiro?

domingo, 12 de julho de 2009

Artigo publicado no Diario de Pernambuco em 12.7.2009

ADAPTAÇÃO AO REVÉS
Clóvis Cavalcanti
Economista ecológico e pesquisador social

Sabemos como é sufocante o meio ambiente de nossas cidades. Não há muito que se contemplar nelas em matéria de verde. Em Pernambuco há poucas áreas urbanas onde a população pode relaxar, sentada na relva ou à beira de um lago. Várias cidades do país, porém, oferecem uma riqueza de parques. É o caso de Brasília, com seu grande Parque da Cidade. Ou mesmo Garanhuns com o Pau Pombo e o Euclides Dourado. Porto Alegre proporciona o Farroupilha, enorme; Belém do Pará tem o Bosque (Rodrigues Alves), cheio de vegetação amazônica. O Recife e Olinda não se sobressaem neste aspecto, apesar de algumas áreas verdes relevantes (como Dois Irmãos e o Horto Del Rei, na primeira e na segunda, respectivamente). Olinda possui também o Memorial Arcoverde. Mas este é um espaço inacabado que tem tomado forma aos poucos, sem uma diretriz que diga o que ele vai ser. No começo, pensava-se em usar o terreno, de uns 15 hectares, para a construção de prédios, idéia burra logo abandonada. A população já tinha dado destino ao local. Nele fizera-se um campo de futebol de tamanho oficial. Perto do viaduto, uma cancha para o jogo de malha foi implantada informalmente e ali, nos fins de semana, realizavam-se animadas disputas. No governo Joaquim Francisco (1991-1995) acabou-se com o grande campo de futebol, criando-se dois menores e duas quadras de tênis. O campo de malha foi eliminado. Mais tarde, surgiu o útil Espaço Ciência, afora outras atrações.
Aos poucos, portanto, o Memorial Arcoverde assumiu função significativa, servindo sobretudo à população de baixa renda que o beira a oeste. Sei bem disso, porque vou lá de vez em quando nas minhas corridas matinais, sem contar que passo por ali, de carro, diariamente. Ora, é nesse contexto que parece um desastre a transformação feita neste momento no núcleo do parque para abrigar o Cirque du Soleil. No momento em que o governo pernambucano se expõe com a marca do socialismo e a prefeitura de Olinda ostenta (há mais de oito anos) a sigla do PCdoB (Partido Comunista do Brasil), soa com um tom de incrível ironia a privatização feita do bem público que é o parque para uma finalidade incompatível com o destino de uma área como aquela. Destruíram-se árvores, vegetação, dois campos de futebol, as quadras de tênis – um patrimônio que era fator de beneficio para bom número de pessoas. Segundo uma autoridade estadual irritada com pergunta de jornalista sobre os campos de futebol sacrificados, aquilo era só “poça de lama”. Sim, os campos ficavam empoçados quando chovia, mas nunca deixou de haver jogo lá, com os atletas de chuteiras e uniformes. Para estes, a poça de lama era uma cancha. A opinião da autoridade bem mostra o desprezo pelos humildes daqueles que podem jogar em campos de futebol-society.
Mais triste ainda é constatar aqui a insensibilidade dos promotores do Cirque du Soleil, que fazem alarde em Montreal (Canadá), de onde vêm, de credenciais eco-amistosas. Se fosse um circo pernambucano que quisesse se apresentar em Montreal, jamais lhe seria permitido fazê-lo em qualquer um dos vinte grandes parques da agradável cidade canadense. Ali, o Parc Mont-Royal, seu mais famoso, possui uma área de 200 hectares – mais de dez vezes o tamanho do Memorial Arcoverde. Ninguém, nele, se atreve a arrancar uma folha sequer. Não só porque isso não se faz em áreas comuns de país desenvolvido, como porque os parques de Montreal primam pela qualidade. As autoridades daqui, quando vão a países como o Canadá, sabem comportar-se de forma civilizada (à custa de muito esforço, talvez). Não jogam papel nem cospem no chão. Parece que uma adaptação reversa (aos maus costumes locais) faz parte da cultura do Cirque du Soleil. Suas credenciais eco-amistosas sumiram. Pena!

domingo, 28 de junho de 2009

Publicado no Diario de Pernambuco - 28.6.2009

LAMENTÁVEL DEGRADAÇÃO NO MEMORIAL ARCOVERDE
Clóvis Cavalcanti
Economista ecológico e pesquisador social

Em todo lugar do mundo, parques urbanos são conservados para que prestem bons serviços. Na verdade, a cidade, como ecossistema artificial, não dá possibilidades como as que a natureza oferece para bem-estar humano. Sem contar que, com o verde, os parques contribuem para uma função importantíssima do meio ambiente: retirar carbono da atmosfera. Daí que, quanto mais ampla a oferta nas cidades de áreas arborizadas e propícias ao contato indispensável com a natureza, tanto mais qualidade de vida para todos. Diante dessa constatação, parece absurda a destruição que se processa neste momento no parque Memorial Arcoverde, em Olinda, para facilitar a vida de uma empresa, o Cirque du Soleil, que ali terá passagem efêmera em julho deste ano.
Não se está negando que o Cirque du Soleil ofereça espetáculo ímpar, de merecida fama. Acontece que tal empreendimento tem como proposta, cuidados ambientais que não justificam o que se faz hoje no Memorial Arcoverde. Ele precisa de um lugar para se apresentar na Região Metropolitana do Recife. Só que, para tanto, escolheu-se um local que não tem como finalidade ser sítio de eventos. Pior: para o Cirque du Soleil caber ali, inexistindo espaço adequado, decidiu-se, com aprovação oficial das autoridades competentes, que toda uma área teria que ser adaptada às “necessidades” do negócio. E aí nela se procede a uma limpeza radical. Onde havia dois campos de futebol, constrói-se agora um pátio cimentado, derrubando-se árvores e toda vegetação que antes existia no redor. O processo é de desertificação. Algumas árvores poupadas da derrubada insensata ficaram cercadas de cimento por todos os lados, à exceção do buraco deixado para seu tronco. Não há outra palavra para qualificar o procedimento da instalação do Cirque du Soleil em Olinda: crime contra a ecologia.
Em Montreal (Canadá), de onde o circo procede com seu modelo original e amplamente admirado, jamais se permitiria crime como esse. O próprio Cirque du Soleil não teria coragem – se lhe passasse pela cabeça tamanha ofensa à cidadania – de levar a cabo em sua cidade de origem a agressão que se vê em Olinda. A população de Montreal – cidade paradigma mundial de qualidade de vida –, certamente, impediria que qualquer milímetro de seus belos parques (e são muitos mais do que em Olinda ou no Recife) fosse sacrificado para o Cirque du Soleil. Ou para qualquer outra finalidade. Aqui, porém, o grupo canadense, sem qualquer pudor, não só deixa que se destrua o patrimônio urbano para atender a seus interesses, como cobra valores inconcebíveis para aqueles que desejarem assistir a suas exibições. Com efeito, os ingressos para elas em Olinda, em espaço do povo – de quem, pois, o grupo recebe um subsídio –, vão de 250 a 500 reais. Não faz nenhum sentido que se permita absurdo desse naipe, ainda mais num território cercado de população de renda totalmente incompatível com o preço dos ingressos do Cirque du Soleil. Que essa organização queira ganhar dinheiro é algo compreensível no capitalismo. O que é inaceitável é deixar que o poder público subsidie o empreendimento ao custo da destruição ambiental. Sem dúvida nenhuma, é isso que está acontecendo em Olinda, com o beneplácito da prefeitura e do governo do Estado. Fez-se consulta à população interessada para saber o que ela pensa? Quem autorizou a destruição que está acontecendo no Memorial Arcoverde? Vale lembrar que esse parque só possui a vegetação que tem porque, quando começou sua implantação, a sociedade civil impediu que se destruísse o manguezal que ele ostenta. Vem agora o governo e permite agressão inominável ao patrimônio que ali existe. Lamentável decisão.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

São João na Fazenda do Tao - 2009


Pré festejos com uma feijoada

Foto oficial no dia de São João

Comemoração passa de pai, para filho, para neto...

De avô para neto
Rim de bode, farrofa d'água, pimenta, quentão ou cachaça

Bandeirolas de seda

Limão para o fazer o quentão

Um banho de cachoeira para relaxar
A Varanda convida para meditação e também um forró

Venha participar dos festejos de São João no terreiro

A noite inicia com muitos fogos

Coloca o quentão no fogos de lenha e dá uma esperimentadinha

Lá pras tantas, depois do forró é hora de forrar o bucho com uma canjinquinha

domingo, 14 de junho de 2009

Homenagens da Fundação Joaquim Nabuco, Confraria da Educação e alunos


Desenho do Aluno Victor Coimbra, Clóvis com o Tao na Cabeça e a natureza no corpo...

Qual o sentido da vida? "Seja a mudança que você quer ver no mundo" Mahatma Gandhi


Publicado no Diario de Pernambuco, 14.6.09

DE VOLTA À CONCESSÃO DE SESMARIAS

Clóvis Cavalcanti
Economista ecológico e pesquisador social

Causando enorme tristeza, o Senado, na noite do dia 3 do corrente, votou a famigerada Medida Provisória 458, aprovando-a tal e qual ela saiu da Câmara. Por essa iniciativa, com base em ação do executivo, os congressistas brasileiros legalizaram a grilagem no país. De uma só tacada, com efeito, 67 milhões de hectares de terras públicas na Amazônia – 670 mil quilômetros quadrados (32 vezes a área de Israel, 2,7 vezes a do estado de São Paulo, 7,7 a de Pernambuco) – foram privatizados. Na dolorosa sessão do Senado em que foi votada a MP, além do enfrentamento de dois Brasis, o da Senadora Katia Abreu (DEM-TO), relatora da medida e presidente da Confederação Nacional de Agricultura, e o da Senadora Marina Silva (PT-AC), praticamente ressurgiu o processo de concessão de sesmarias. Como se sabe, uma causa importante da destruição da Mata Atlântica foi que o governo não dava nenhum valor à terra – em extensões vastíssimas – que concedia tão gratuitamente no período colonial. Tendo consumido toda a floresta primária mais promissora em dada sesmaria, um beneficiário da concessão costumava vendê-la por uma ninharia e pedia outra, que normalmente obtinha sem dificuldade. Esse foi um doloroso modelo de privatização do bem comum que não daria certo. Pois é exatamente o mesmo modelo que volta a tomar corpo em pleno século XXI.

Mais interessante é que são unânimes as reclamações dos que vêem nas invasões de terras pelos integrantes do MST um crime contra a propriedade. No caso da MP 458, legaliza-se a invasão da propriedade pública – em terras muitas vezes mantidas sob condições propícias há séculos por populações indígenas ou tradicionais. Na sessão de 3 de junho no Senado, Katia Abreu, “num discurso que precisa ser visto, lido e deglutido” – como sugere nota do Greenpeace Brasil divulgada no dia 4 – defendeu sem a menor vergonha a legalização das invasões de terras públicas. Disse que o que acontece hoje na Amazônia foi o que aconteceu em São Paulo séculos atrás. Em São Paulo era tudo terra pública, que foi domada, ocupada, titulada. Por que na Amazônia não poderia ocorrer o mesmo? Do mesmo modo, cabe indagar, se o primeiro ciclo da história do Brasil é o da “caça ao índio”, por que não repetir o mesmo padrão nos tempos de hoje? Sobre isso, Marina Silva, com a serenidade e lucidez que a tornam um ícone nacional inconteste, falou “do Brasil que não pode se repetir, do Brasil que precisa se reinventar, que não pode escorar seu processo de desenvolvimento nos erros do passado”. Sem dúvida, esse é um apelo sensato, até porque a Abolição foi conquistada em 1888 e não somos mais colônia de Portugal.
Como o Greenpeace adverte em sua nota, é “aflitivo ver que a sociedade parece anestesiada diante dessa situação. A sensação é que não há quem se incomode mais com a devastação e a degradação”. Revelando, porém, o senso de sua responsabilidade pública, a senadora Marina Silva, em carta aberta ao Presidente Lula tenta fazer o governo despertar da anestesia. Diz ela: “Os objetivos de estabelecer direitos, promover justiça e inclusão social, aumentar a governança pública e combater a criminalidade, que sei terem sido sua motivação, foram distorcidos e acabaram servindo para reafirmar privilégios e o execrável viés patrimonialista que não perde ocasião de tomar de assalto o bem público, de maneira abusiva e incompatível com as necessidades do País e os interesses da maioria de sua população. Infelizmente, após anos de esforços contra esse tipo de atitude, temos, agora, uma história feita às avessas, em nome do povo mas contra o povo e contra a preservação da floresta e o compromisso que o Brasil assumiu de reduzir o desmatamento persistente que dilapida um patrimônio nacional e atenta contra os esforços para conter o aquecimento global”. Palavras precisas e que indicam o que se deve fazer: total rejeição da MP 458.